AS VOZES DA GUERRA – Uma análise da narrativa de As Crônicas de Gelo e Fogo

Sofia Geboorte, no blog A Irmandade
Dentre as diversas sagas de fantasia que surgiram na última década a que mais vem angariando leitores é As Crônicas de Gelo e Fogo, composta por sete livros – sendo que o último ainda não terminou de ser escrito – do americano George R.R. Martin. Inicialmente sua obra foi comparada ao Senhor dos Anéis do mestre Tolkien, contudo a narrativa excedeu as expectativas, mostrando-se mais do que um livro de fantasia épica, mas também uma inovação literária.
A história se passa no fictício reino de Westeros, dividida em regiões administradas por famílias ou Casas, como se fossem feudos. Em A Guerra dos Tronos, o primeiro livro, o leitor é conduzido para o Norte do país, para Winterfell cujo senhor é Eddard Stark, um nobre com princípios e que se destaca por sua honra, tantas vezes aclamada ao longo do livro.
O romance é composto por inúmeros personagens, sendo que alguns protagonistas e, outros que se tornam, tomam as rédeas do enredo. Para aqueles que já leram o primeiro livro A Guerra dos Tronos, devem saber do que se trata, mas para os leigos eis a explicação da estética narrativa da obra.
Ao invés de ser dividido em capítulos, o livro é dividido em pontos de vista dos personagens. As perspectivas de alguns deles é que conduzem o romance, e permitem que o leitor seja mais facilmente manipulado pelo narrador onisciente. Todavia essa manipulação não é algo negativo para o romance, já que todas as obras literárias manipulam os leitores. Isso ocorre de forma natural, pois, somente o narrador sabe a verdade, e somente ele tem o poder de mostrá-la na dose que deseja para a compreensão do leitor.
O clássico conto epistolar O Homem de Areia de E.T.A Hoffmann, é um exemplo de manipulação, pois por ser epistolar sabemos apenas aquilo que é dito nas cartas, sem nunca termos a certeza dos fatos, já que o conhecimento da história é mostrada para o leitor por meio dos fragmentos dos personagens envolvidos que consigo trazem as impressões quanto aos fatos. Por se tratar de um conto que permeia o fantástico, mas também traz dúvidas quanto à sanidade do protagonista, cabe ao leitor decidir em que deve ou não acreditar, se o homem de areia existe ou é fruto da imaginação de Natanael.
Mas em O Homem de Areia e tantos outros contos e romances fantásticos que fazem esse tipo de ‘manipulação’ com o conhecimento do leitor, o foco narrativo é homo e autodiegético, ou seja, os narradores fazem parte da história. Caso totalmente diferente de A Guerra dos Tronos, em que o foco narrativo é heterodiegético, possuindo um narrador onisciente, que sabe tudo o que se passa na história, até mesmo na mente dos personagens. Mas a grande peculiaridade da narrativa de Martin é justamente a forma como a voz desse narrador se confunde com a voz dos personagens.
Após o prólogo, o primeiro personagem/capítulo que aparece é Bran Stark, um dos filhos mais novos do senhor do norte Eddard Stark. É a partir dos olhos de Bran que tomamos conhecimento dos outros personagens, e da primeira cena que ocorre em Winterfell. Porém, não é Bran que narra, há o narrador heterodiegético, cuja voz se vincula a partir dos olhos, de Bran, de sua perspectiva, é nesse momento que as vozes se confundem, como se soassem em uníssono, mesmo sendo claramente distintas.

Mais adiante temos diversos outros personagens que se variam entre as perspectivas de vista da narrativa, como Daenerys Targaryen, é somente por meio dela que conhecemos o Leste, Além do Mar Estreito, e como toda história não possui apenas uma versão, ela nos mostra o outro lado da moeda do que ocorreu no reino anos antes da ascensão do Rei Robert. Assim como é através de Jon Snow, filho bastardo de Eddard Stark, que podemos saber dos fatos na Muralha, lugar onde se concentra a maior parte dos eventos sobrenaturais. Quando a narrativa se concentra em Catelyn Stark, esposa de Eddard Stark, vemos seus anseios e a visão das mulheres numa terra que muito se parece com nosso mundo medieval. Adentramos também pelas ilusões infantis de Sansa Stark, filha mais velha do lorde Eddard, e pelas aventuras de Arya Stark, menina mais nova do lorde do Norte. Além da visão de Tyrion Lannister, o irmão “duende” da inescrupulosa rainha Cersei.
Mas não podemos chamar essa tática de trocar capítulos por personagens/ponto de vista, que Martin escolheu, de simples perspectiva ou foco narrativo, pois esse processo que se passa fácil diante dos olhos do leitor segue além. É justamente em A Guerra dos Tronos que podemos ver os princípios de exotopia, intertextualidade epolifonia. Para melhor entendimento desses três conceitos podemos suscitar a idéia dedialogismo que é o contato entre os enunciados, ou seja, quando um discurso está impregnado do discurso de outrem, isso ocorre em todas as esferas literárias. Esse contato literário entre os enunciados resultam na exotopia que Cristovão Tezza explica em seu artigo As Vozes do Romance:
“Pelo princípio da exotopia, eu só posso me imaginar, por inteiro, sob o olhar do outro; pelo princípio dialógico, que, em certo sentido, decorre da exotopia, a minha palavra está inexoravelmente contaminada do olhar de fora, do outro que lhe dá sentido e acabamento. Em suma, no universo bakhtiniano nenhuma voz, jamais, fala sozinha.”
(TEZZA, Cristovão. 2001)
A exotopia é também a relação do eu e o outro, que dialogam entre si, quando o ‘eu’ excede sua visão de mundo olhando através do outro, com os olhos do outro, ocorre a exotopia. Mas como isso surge no romance A Guerra dos Tronos? Esse conceito, que muitas vezes permeia os estudos lingüísticos, pode não ser tão simples quanto a intertextualidade – um texto que mantém resquícios ou alusões à outros textos – entretanto ao exemplificá-lo com a Guerra dos Tronos sua compreensão torna-se mais simples.

O foco narrativo do qual Martin faz uso pode ser visto como se fosse um caleidoscópio, onde cada feixe de luz diferente é uma voz dos personagens, que mesmo, sendo autônomos, vão através do fluxo de pensamento, ou as memórias e opiniões, interferindo na história dos outros personagens, surgindo daí a manipulação ao leitor citada anteriormente. Isso porque quando, por exemplo, a perspectiva está centrada em Tyrion Lannister, conhecemos melhor esse personagem e aqueles que o rodeiam, suas dúvidas e suposições quanto ao desenrolar da historia, e no caso do primeiro livro ele é o único passe que o leitor tem para dentro da corte de Westeros.
Quando no início do romance Tyrion se encontra em Winterfell, a terra dos Stark e seus lobos gigantes, se a perspectiva mudasse para Ned Stark, o outro lado da história seria mostrado, da mesma maneira que ocorreu com Tyrion. Têm-se, dessa forma, duas historias dentro de uma mesma. É desse ponto de partida que se fazem as vozes dentro do livro, as diferentes vozes que são autônomas e se confundem com a voz do narrador onisciente, como se fossem uma só, não apenas por meio do foco narrativo, mas principalmente do fluxo de pensamento que passa pelas páginas de forma tão agradável e bem feita que o leitor nem mesmo percebe que ocorreu a exotopia, a visão das sensações de um personagem através de outro, por exemplo, e principalmente esse efeito das diversas vozes que pode ser denominado de polifonia.
São por esses fenômenos de foco narrativo, que muitas vezes passa despercebida pelo leitor – e não é por menos, já que a história em si não permite uma distração teórica – que A Guerra dos Tronos é um dos romances de fantasia épica mais bem escritos. Os pequenos truques, essas mudanças de vozes que Martin utiliza, fazem com que não somente a estrutura narrativa se torne mais atrativa, mas também é por meio dessas vozes que soam em uníssono, feito cornetas anunciando a guerra, que ele consegue manipular o leitor. Mais uma vez lembrando que devemos entender essa manipulação como uma arma que o autor, principalmente de literatura fantástica e mistério, se utiliza para dosar o conhecimento do leitor, não entregando a história de uma vez, permitindo especulações, fazendo com que nós, leitores, possamos exercer nossa principal função: a de imaginar.

George R. R. Martin
Livros Citados
A Guerra dos Tronos – George R.R.Martin
O Homem de Areia – E.T.A Hoffmann
Bibliografia Teórica
CANDIDO, Antonio e outros A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 1972.
BAKHTIN, Mikhail. Questões de Literatura e de Estética: a Teoria do Romance. São Paulo: Hucitec.1988.
BAKHTIN, M. M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
FIORIN, José Luiz. Dialogismo, polifonia, intertextualidade: Em torno de Bakhtin. São Paulo:Edusp, 1994. (Coleção Ensaios de Cultura)
TEZZA, Cristovão. A Contrução das Vozes no Romance. Bakhtin, dialogismo e construção do sentido; Editora da Unicamp, 2001; organização de Beth Brait.
REUTERS, Yves. A análise da narrativa.
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07 fevereiro 12 at 8:01pm
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[...] Uma análise da narrativa de “As Crônicas de Gelo e Fogo” [...]